sábado, 18 de fevereiro de 2012

O homem que não sabia sonhar

 
Ele havia deitado na relva verdinha, embaixo de uma imensa paineira que despejava suas plumas ao vento, como pequenos flocos de neve que reluziam ao sol. Ali, talvez, conseguisse dar asas à imaginação. A outros, as nuvens que manchavam o céu de branco, poderiam apresentar as mais diversas formas, mas não a ele. Os braços estavam esticados, repousados sobre a gramínea; o corpo estava presente, mas o pensamento encontrava-se distante, sem rumo, como um barco à deriva navegando a esmo.
Tudo se achava propenso às idéias: a tranqüilidade, a liberdade, o local, clima... tudo era perfeito, mas elas teimavam em permanecer veladas, recônditas em algum lugar inacessível a ele. Tudo o que lhe vinha à mente eram desatinos, coisas sem sentido. O que queria, na verdade, era fugir daquela apatia, daquela vontade de criação sem êxito – introspecção maldita! Esta não o deixava libertar-se do jugo de si próprio; seu ego o alertava de suas inaptidões – havia coisas que não lhe eram possíveis.
Ansiava criar batalhas e fugas alucinadas; aventuras por mundos desconhecidos; viagens submarinas ou, quem sabe, contos de fadas repletos de príncipes e princesas, com bruxas e madrastas malvadas ou seres encantados. Mas, não! Definitivamente, não! Permanecia naquela letargia, naquela modorra aprazível e ao mesmo tempo insuportável, tentando, sem sucesso, recordar da última vez em que havia sonhado.


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