segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Súplica


Por que, Deus, levou-a para contigo?
Que saudade trago em meu peito!
Bem podias estar comigo,
Em vez de tão funesto leito!

Pudesse eu, tê-la salvado do perigo,
Mas contra desígnio divino não há jeito.
Saibas que deixaste ermo coração amigo,
Oh, se ao menos rocha fosse feito!

No belo Éden fecundo, jaz na eternidade;
Envolta por “entes”, mensageiros alados,
Protetores dos homens, sua dignidade!

Ah, ouvis-me, escutais-me “seres” calados!
Atendeis estas preces, levais-me à minha beldade!
Deixeis que unamo-nos! Espíritos apaixonados...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Atriz e Eu

I
Deveras donzela, fazes-me chorar!
Oh, virgem tão bela, por que me deixar?
Ingênua, singela, dei-te fama... Valor,
A ti se venera! Fazes-me teu senhor!

Agora, sempre, quando e onde for,
Em tantos momentos fazes-me parar!
Drama, paixão, choro, ódio, amor...
Passagens marcantes hás de lembrar!

Foste em cada cena... Uma vida!
Às musas clamou! – por estas regida.
Plebe, pobre... Por senhora passou!

Em batalha esteve – dita vencida!
Aventura divina, ora sofrida,
Em Malogrado destino chegou!

II

Magníficas noitadas de luar,
Que estiveste a minha frente... Amor!
De horas marcadas, deixadas passar!
Quão linda estava, vestida em flor.

Assim foste minha: em alegria e dor!
 Em felicidade, mágoas... Rancor!
Oh, miserável entretenimento!
– Novela, riso, reza... Sofrimento.

Personagens me fazem rir, chorar!
Bondosas ou malvadas, vou... Nem pensar! 
Abandoná-la sem um final? – lamento.

Quero, mas não posso minha querida!
Não posso abandonar-te ao vento,
Preciso findar, acabar com essa lida!

III

Nossa história recém começou,
Somos tão jovens, há muito que trilhar!
Muitos passos a dar, por que terminar?
Fiel, sincero, atenção lhe dou!


Que serás de ti, quem encarnará?
Sou teu público, teu mestre, senhor!
Sem mim não és nada! Definhará!
Sei que podes, mas... Não vás, por favor!

Deixemos a crítica dirimida,
Por tempos – que tempos! – foste oprimida,
Por nebulosos percalços passou!

Por inúmeros foste dirigida,
Sua reputação... Distante é sabida!
Portanto... Fiques! Se fores, me vou! 

Uma história às avessas

 
Seu nome era José,
José Maria Jesus.
 Só José, ele dizia.
José amava Maria.
Maria estava a dar à luz,
Não importava, insistia José.
Mas Maria lhe não queria.
Então, à força,
José, a Maria seduz!
A pobre da Maria,
Violento, José feria.
A justiça, por tal covardia,
José, ao cárcere conduz.
Agora nos resta Maria,
Que à tristeza se reduz.
Pois em seu ventre havia,
O menino Jesus.

O homem que não sabia sonhar

 
Ele havia deitado na relva verdinha, embaixo de uma imensa paineira que despejava suas plumas ao vento, como pequenos flocos de neve que reluziam ao sol. Ali, talvez, conseguisse dar asas à imaginação. A outros, as nuvens que manchavam o céu de branco, poderiam apresentar as mais diversas formas, mas não a ele. Os braços estavam esticados, repousados sobre a gramínea; o corpo estava presente, mas o pensamento encontrava-se distante, sem rumo, como um barco à deriva navegando a esmo.
Tudo se achava propenso às idéias: a tranqüilidade, a liberdade, o local, clima... tudo era perfeito, mas elas teimavam em permanecer veladas, recônditas em algum lugar inacessível a ele. Tudo o que lhe vinha à mente eram desatinos, coisas sem sentido. O que queria, na verdade, era fugir daquela apatia, daquela vontade de criação sem êxito – introspecção maldita! Esta não o deixava libertar-se do jugo de si próprio; seu ego o alertava de suas inaptidões – havia coisas que não lhe eram possíveis.
Ansiava criar batalhas e fugas alucinadas; aventuras por mundos desconhecidos; viagens submarinas ou, quem sabe, contos de fadas repletos de príncipes e princesas, com bruxas e madrastas malvadas ou seres encantados. Mas, não! Definitivamente, não! Permanecia naquela letargia, naquela modorra aprazível e ao mesmo tempo insuportável, tentando, sem sucesso, recordar da última vez em que havia sonhado.


Reflexões

Reflexões do jovem homem velho

O nascimento:
– Uma porta que se abre.
A morte:
– Outra que se fecha.
Entre elas?
– Um sinuoso corredor...

Palavras de um jovem homem velho

O tempo amolece o ímpeto,
 Enrijece as palavras;
O tempo fraqueja a mão
Que outrora fora austera;
O tempo sorve, aos poucos,
A carcaça esbranquiçada
  – Anteriormente, um talhe vigoroso.
O tempo consome a lucidez,
Apaga as lembranças.
O tempo, lentamente, esgota
Os resquícios de memória;
O futuro nos parece
Vulto fantasmagórico,
Que a debilidade acompanha.
Oh, miserável condição humana!
Antes fosse uma pedra!
– Que não percebe o decurso
Deste perverso, obsequioso,
Serviçal divino chamado tempo.

Junho

 
Nesses dias o tempo passa lentamente;
O chão recobre-se de folhas
Despejadas pelo vento;
O céu, rotineiramente cinza,
– que se confunde com chaminés
Enegrecidas, fumegantes – empalidece
 A paisagem de velhas árvores despidas.
O frio enrijece corpo e alma
[é pouco calor humano
para muita frigidez].
 Nesses dias, o sol esconde-se mais cedo,
Prefere refugiar-se no alvorecer
De algum lugar distante.
Em Junho, tudo parece entristecer-se,
Como o semblante do menino
Que se vê coberto pela noite,
Sua única companheira.

Nesses dias a solidão impera:
Abarca rios de corações pulsantes,
Amargurados, vazios.
– Sede benfazeja! Oh garoa que encharca
Parcas vestes de nobres perambulantes! 
Inunda de alegria, de ânimo, esta mísera,
Abjeta morada carnal seca de vida.

Soneto I

I
Oh, bela moça, aquela!
De amor e de vida,
Cansada estava,
De coisa sofrida.

Com lágrimas nos olhos,
De casa partiu.
A terra batida,
Não mais lhe serviu.

Por outras foi regida:
Riqueza, fama, valor...
Não bastava mais a lida,

Campos repletos de cor,
Nem a imensidão florida,
Tampouco, singelo amor!

                   Ryckard Kalsson